Fora do Eixo em questão

Nenhum vínculo. Apenas coletando e reunindo relatos e respostas

Lenissa Lenza, Casa Fora do Eixo São Paulo

Acho engraçado como as pessoas falam de outras pessoas e de ações com tanta propriedade, conhecendo quase menos que a superficialidade delas. Dessa maneira, toda interpretação própria vai se tornando uma grande ficção com o risco cruel de ser a prova da verdade. Uma verdade PESSOAL com a esnobe pretensão de ser a verdade de TODOS. Uma atitude tão vil quanto se escorar na arte pra se achar iluminado detentor da verdade. E se teve algo de profundo teste pra minha própria superação de rancor, ao longo desses 11 anos de processo-vida coletiva, foi a existência de “artistas iluminados”. 

Me lembro que bem no início do Cubo, coletivo que comecei minha trajetória pré fora do eixo em 2002, surgiram várias questões sobre como atuaríamos. Sem a pretensão de ter um plano mirabolante, só nos entregamos à pratica diária em conjunto, “depositando” tempo, desejos, angústias, problemas, anseios, estímulos, propostas e o que mais possuíamos individualmente, num caixa comum que fosse gerido coletivamente. Por sorte um de nós era muito visionário e também cedeu, num grande gesto de generosidade, seu particular “dom” pro coletivo. Os resultados dessa “salada orgânica de singularidades” apropriadas coletivamente, “ditariam” os próximos passos e assim sucessivamente. Isso se tornou premissa pra tudo: o laboratório, o experimento coletivo, em que nós éramos os primeiros “ratos do laboratório”, experimentando qualquer invenção que criássemos, sentindo e concluindo por conta própria, se era positivo ou não. Se formando a partir do empírico, do instinto, do afeto, da colaboração, da entrega e de qualquer visão que nos identificássemos ou elaborássemos. Desnudar-se de manter somente a elaboração subjetiva, teórica, pré concebida, fruto dos cérebros alheios e dos nossos próprios, pra concretizá-los em práticas de nós mesmos. Em vida. E assim, diminuir cada vez mais a distância entre o que se faz e o que se fala. Conselho sábio de Paulo Freire pra determinar um dos primordiais e principais elementos da nossa experiência: autonomia e liberdade.

O primeiro passo foi morarmos juntos num único lugar que seria nossa casa e sede, na avenida ipiranga 121, centro de Cuiabá. Pactuamos que tudo que cada um tivesse, seria colocado “na roda” pra gestão coletiva. A casa ficou cheia de mobília, tendo até alguns itens em “excesso” que “de cara” virou “salário” da nossa primeira diarista, super querida, politizada e sensível, “santa” Verinha. Alguns saíram do emprego, outros da faculdade pra se dedicarem exclusivamente ao coletivo. Eu mesma não saí da faculdade. Fazia Comunicação na UFMT. Não saí pra manter a negociação estável com meus pais, pois tudo que poderiam me dar era a formação que não tiveram. Nasci e cresci no interior de goiás. A faculdade em Cuiabá, aos 17, foi minha chance de “ganhar o mundo”. Mas tudo que eu queria era não precisar mais ir até lá. Não que a faculdade não tivesse sido importante. Foi. Até criarmos o Cubo. Depois disso ela teria perdido a sua função prioritária: me formar pra sobreviver. No Cubo eu sobrevivia me formando, o que me fazia muito mais sentido. Enfim, entre “trancadas e voltadas”, tratei de ver a universidade como uma estensão do coletivo e não o inverso, o que a tornou muito mais interessante, proveitosa e desejável.

Contextualmente, começamos experimentando o que cada um trazia de proposta em cima de seus desejos: núcleos de roteiros, filmes, eventos de música, gravinas, ensaios, rodas de violão, leituras coletivas, sessões de filmes e video games, reuniões em bares e restaurantes da cidade, bebidas, maconha, orgias, etc. Tínhamos 20 e poucos anos, nada a perder e tudo a ganhar. Arte e “ócio criativo” era o que não faltava na sede e nas vidas do coletivo. Inclusive, em demasia. Brincamos que foi a fase do iluminismo. E foi mesmo. Dali surgiu todo o início de um processo tão extenso, intenso e extensor que ninguém poderia imaginar nos seus mais audaciosos sonhos. Entretanto, só foi possível justamente por não parar ali, na arte, exclusivamente com fim em si mesma. O equilibrio teria que vir pra ser sustentável, continuado, perene, transcendente e enraizável. E tudo que queríamos, era continuar.

Percebemos a necessidade de levar cada vez “mais a sério” nossa experiência, enfrentando o paradigma de se sustentar num esquema padrão, com um conceito não padrão. Nos organizamos de modo a atender as necessidades estruturais e conceituais, nos desdobrando e aprendendo a exercer “funções” das mais diversas possíveis. Desde as intangíveis como mediar conflitos, estimular e nivelar nossas idéias, vontades e sensações, ser código aberto, transparente, compartilhar tudo o que tínhamos, engolir sapo, respeitar opiniões, ouvir, falar, “comprar” desgaste, criticar, auto criticar, ponderar, trocar, recuar, avançar, costurar, dosar, ser propositivo e etc; até as tangíveis como gravar cd’s, produzir, contabilizar, administrar, planejar, filmar, editar, desenhar, cozinhar, limpar, carregar, montar, sistematizar e etc. Buscamos agregar a maior diversidade de pessoas entusiastas para colaborar, se emponderar e participar do que estávamos construindo. Tudo que fosse necessário fazer pra manter e desenvolver o coletivo, éramos capazes de aprender, criar e mobilizar, independente das condições precárias e difíceis que tivéssmos passando. E que inclusive, se fez presente ao longo de todo o processo. Não foi uma nem duas vezes que não tínhamos comida, luz, água, telefone, internet, passe, gasolina, ou qualquer outro item básico pra sobreviver. Imagina reivindicar “salário” pra nós mesmos. Mas o desejo, a vontade e a disposição sempre falaram mais alto tornando a dificuldade em oportunidade de aprendizado, de desapego profundo, como aprender a tirar leite de pedra e valorizá-la mais do que achar que é “só um monte de pedra” pra atrapalhar o seu caminho.

A vivência coletiva não é nada fácil pelo parâmetro da vivência individualista. Já se imaginou morando com mais de 20, 30, acordando e dormindo todo dia, as vezes sem comer direito, as vezes dormindo no chão, usando as roupas disponíveis no armário comum, aprendendo a respeitar, compartilhar, amar e trocar com qualquer um que esteja aberto pra isso? Já se imaginou tendo que se abrir pra receber qualquer um que esteja afim de provar que tá aberto a viver isso, ainda que mil “pré conceitos” estejam ao entorno desse um? Ainda que não se saiba exatamente se é confiável e nunca vai saber se realmente não experimentar, não der a chance? Muito se fala em direitos, deveres, em princípios e valores nobres, mas duvido que muita gente esteja disposto a se superar pra exercê-los, mantê-los e continuá-los de fato. Se desprender de uma série de vícios mesquinhos, egoístas, egóicos, hipócritas, arrogantes, desleais, moralistas, preconceituosos e desonestos é tarefa pra qualquer um, mas não é exercitada por muitos. Especialmente pelos que costumam se “apropriar” da VERDADE, tornando-a absoluta e por um único filtro, é garantia de distorção dos fatos. Pior ainda é usar da “estética” pra se tornar um produto atraente capaz de credibilizar qualquer inverdade no seu conteúdo. Quando a arte começa a querer ditar exclusivamente a realidade, se torna a própria hegemonia, igual a tudo.

No início do nosso contexto, a música, em especial o rock, se tornou a frente “mais fácil”, não só por ser mais agregadora como por trazer mais “pedreiros” do que “artistas” exclusivos e iluminados. O audiovisual, arte da qual eu mesma iniciei meu processo “artístico”, trazia aquela sensação de “apropriação do coletivo” por precisar de várias pessoas e funções pra executar o seu produto. Porém, completamente vertical. O diretor como o chefe de todos sem nenhuma necessidade deliberar junto aos demais pra fazer o que quisesse com o “seu filme”. Na música pelo menos, se percebia de cara a necessidade de um compartilhamento, negociação e distribuição maior de decisões entre os integrantes sem que um “chefe” fosse o juiz maior. As pessoas do meio audiovisual, além de poucas, eram as mais difíceis de se agregar em torno de projetos comuns. Ainda mais pautadas na lógica analógica da película (caríssima especialmente pra Cuiabá) e da verticalização da gestão. Até mesma eu, uma amante praticante do audiovisual, fui “obrigada” a perceber isso na prática. E por mais que as pessoas tivessem paixão por esta arte, não conseguiam se empreender por muito tempo, continuadamente, com pouquíssimas excessões entre os velhos e novos medalhões do padrão. Quando decidi fazer o meu curta em digital, com pessoas não necessariamente “experientes”, fui considerada praticamente uma herege da sétima arte. 

Não quero dizer que o audiovisual é detentor da verticalização e a música da horizontalidade. Nem que uma arte é “melhor” que a outra. Tô dizendo que as práticas em contextos variados formam resultados que nem sempre dimensionamos coerentemente e muitas vezes é preciso resignificar pra direcionar pro que acreditamos. Na música foi mais “natural” agregar interessados dispostos a colaborar pra uma causa comum e começar a história num padrão fora do padrão. Mas também vivemos muitas resistências para o investimento na própria cena musical (em tese comum a todos), em especial daqueles que queriam só tocar e receber o (alto) cachê com base no seu prestígio-subjetivo-intelectual-artístico-técnico-glorial. Mesmo que esse “prestígio” não rendesse em R$ o que ele “valia”. É claro que esse paradigma começa a ser um dos primeiros a serem enfrentados. O cachê dos músicos sobrepondo o custo das próprias plataformas necessárias pra gerar a rentabilidade dos músicos. Pra mim, isso nunca foi possível ser entendido. Como é que um músico pode ganhar qualquer coisa se não tiver um evento, um palco pra ele tocar, o público pra lhe consumir, a banca pra ele vender seus cd’s e todos os trabalhadores necessários pra fazer isso acontecer? E se todos esses itens necessários não conseguem ser custeados com o que se consegue levantar de recurso em R$, porque as bandas são obrigadas a receber um cachê? Justo as bandas que simbolicamente já são as mais favorecidas simbolicamente com a ação? São elas que ganham a fama, são elas que tem os holofotes, são a elas que a imprensa quer dar voz, são a elas que seu público se devota muitas vezes virando seguidor e propagador do que nem se conhece além das letras e harmonias musicais. Não existe público fiel de um produtor, de um técnico de palco, de um roadie, de um eletricista, de um montador. Eles não ganham capas frequentemente nos jornais pra auxiliar no portfólio, credibilidade e com isso poder aumentar a “rentabilidade”. Eles não tem a suposta “iluminação”. O produtor, além de tudo, é quem tem que assumir a dívida de todos eles, além da sua própria, sobreviver a isso e manter a continuidade dos eventos e palcos pras bandas continuarem a se apresentar sem custo nenhum. Nessa lógica, quem tá explorando os produtores são as bandas. E quem diria que com a queda das grandes gravadoras - as antigas “exploradoras” dos artistas que ganhavam mais do que gastavam “em cima deles” - fosse render frutos da lógica inversa: As GRANDES (auto declaradas) bandas explorando os produtores independentes. Não tô dizendo que as bandas ou qualquer outro trabalhador não tenha que receber pelo trabalho. Tô dizendo que existem contextos onde isso como “imposição” vira mais hegemonia verticalizada e autofágica do que justa, legítima e horizontal. Especialmente quando essa “imposição” é feita desconsiderando vários outros trabalhadores dessa ação comum que estão investindo seu próprio “trabalho” pra que tudo aconteça. Além disso, cachês e salários são negociáveis em qualquer espaço e tempo. Se não quiser, é só não fazer. O problema é berrar pros 4 cantos do mundo querendo “vender” a idéia isolada de que sem cachê, é desonesto. O Ladislau Dowbor pode dar uma palestra pra casa fora do eixo de quase 2 horas, sair dela conhecendo e conversando com todo o público que foi lá pra vê-lo, sem cobrar cachê (R$). Uma banda quase nunca.

Sem contar que o espaço cubo - e assim foi prática dos demais coletivos da rede - além de arcar com a “festinha” pras bandas mostrarem seu trabalho, cedia estudio de ensaio, gravação, serviços de comunicação, audiovisual, distribuição, produção musical, hospedagem solidária, alimentação, bebidas e etc “de graça”. E quando fez isso virar moeda própria, uma vez que era o próprio trabalho que também deveria ser “remunerado”, facilitando inclusive para as bandas “usufruirem” de tudo isso sem exigir o R$, virou alvo de piadinhas das mais cruéis possíveis e ignorantes na medida. Afinal, se alguém acha que o dinheiro não foi inventado pra medir e intermediar as relações de trabalho e produção, é um ignorante. O que a moeda social faz nesse caso, é justamente dar liberdade pra que o trabalhador possa trocar o seu trabalho com o que lhe interesse, sem a necessidade de fazer dinheiro primeiro pra depois custear o que precisa. Ou seja, mais óbvio impossível e ainda assim, tem “inteligências notáveis” que insistem em não entendê-la ou descredibilizá-la. Além disso, a moeda social facilita gerando um crédito a quem prestou o serviço para que depois possa pleitear o serviço de sua necessidade em troca. Favorece pra que as negociações entre as partes se estabeleçam com autonomia gerando uma relação de confiança. Auxilia a corrigir distorções de preço e valor, quando a necessidade sanada de cada um é o que importa na equação. No fundo, o preço é o que menos importa e sim, manter as trocas de necessidades que garantam a continuidade dos projetos e objetivos comuns. Essa é a moeda mais potente da economia fora do eixo e por que não da cultura? Se as trocas é a alternativa de todo mundo que faz acontecer sem ter dinheiro. A diferença é que sistematizamos isso pra de fato traduzir, dar visibilidade e potencializar essa economia. Engraçado é ver gente dizer que não usou os cards prometidos sem nunca ter enviado um mail pro card afim de fazer a retirada. Mais engraçado ainda (pra não dizer trágico) é ver gente se “assustando” com a tentativa de negociar logo no seu produto, em troca da distribuição em centenas de cineclubes no país. Realmente é assustador a capacidade de tantos trabalhadores serem muito mais generosos do que um, o principal interessado, o “artista”, sempre ele. 

O mais triste é perceber que a prática do “artista iluminado” é de se apropriar de toda arte e cultura, desvalorizando os outros trabalhadores dessa história. Alegar que “falta de paixão” pela arte e pela cultura é não querer ver filme ou assistir a um balé, parece débil. Trabalhar dia e noite na construção de milhares de produções sejam elas de quaisquer natureza, ralando e muito pra conseguir fazer tudo acontecer de modo colaborativo, participativo, “cortando um dobrado” pra driblar a falta de grana que as próprias produções não geram, mas precisam pra serem custeadas, não é ter paixão nenhuma pela arte e pela cultura? E alguém vai se propor a bancar produções “só” pra aglutinar gente que não paga por tudo isso pra se “capitalizar” em cima, apostando na incerteza de patrocínios que sequer cobrem os custos das ações? E isso seria “se capitalizar” em cima de quem se não do próprio trabalho, cara pálida? Que mundo é esse que você vive? Mundo de alice? Eu é que fico chocada com esse tipo de alegação! Ou melhor, vinda de uma “artista iluminada”, depois de toda minha experiência com os “ditos”, nem me choca mais. Se o patrocínio só pagasse todas as produções que ele bancou + o salário próprio pelos resultados culturais que ele próprio gerou com essas produções, não seria mais que JUSTO. Mas a realidade amigo, é MUITO diferente da ficção criada no mundo de “alice”. Fazer produções artísticas e culturais, mobilizar pessoas tanto pra investirem nessas produções quanto pra serem expectadoras é muito mais difícil e suado do que pode supor a vã filosofia de “alice”. Aliás, sem dinheiro que custeie isso, só a paixão explica. Mas pro “artista iluminado” a paixão também é propriedade dele. 

Se tem alguém que se capitaliza com a humanidade é o próprio “artista iluminado” que usa da expressão e conhecimento humano adquiridos milenarmente pra “forjar” uma autoria própria, botar preço e ganhar sozinho. Nada contra já que todos os outros trabalhadores “mortais” fazem o mesmo, porém, sem pagar de paladino dá “áurea” humana. E geralmente são esses os mesmos “artistas” que tem o cinismo de acusar quem luta pra que haja a melhor distribuição da sua “renda”, dos seus holofotes, do seu ego inflado, da sua “magia”, de golpista. Se a xuxa quiser ceder os filmes de modo gratuito e os coletivos fizerem campanhas pro filme ser consumido em troca de capital simbólico, NADA MAIS JUSTO. Ou o trabalho dos coletivos não merece nada, nunca? Quem merece é só o “artista”? No mínimo, a Xuxa estaria auxiliando pra uma melhor distribuição de renda, seja renda simbólica ou em R$. Mas o nível de distorção e oportunismo é tão grande, que os pequenos é que se tornam os oportunistas PREDADORES dos GRANDES. É pra rir? A maior ironia da história da arte é que ela principiou como algo subjetivo, capaz de traduzir expressões e comunicação, sensibilidade, mostrar culturas, se esbaldou de diversos conceitos pra mostrar que o humano estava além das relações de trabalho fordista, industrial, maniqueísta e hoje se vê intermediada por uma classe de “artistas” que se colocam como os próprios detentores dela, acima do bem e do mau, porém, não acima de um salário qualquer que se torna o próprio impeditivo de fazê-lo se expressar. Ou seja, se não pagar via o meio mais convencional possível - o dim dim, eu não me expresso. Grandecíssima independência e demonstração de humanidade. Outra grande distorção: querer “independência” de quem contribui de outras formas pra que você se expresse, pra ser dependente do dinheiro que qualquer um possa pagar. Nada mais “nobre”.

Imagine que você faz parte de uma rede de trabalhadores da cultura, multifuncionais em que ser artista é só mais uma das diversas funções valorizadas de maneira equânime que são distribuídas proporcionalmente ao que é demanda do comum, que investe a própria vida de modo integral e dedicado nas relações coletivas com milhares de pessoas e ações, que tem uma velocidade ímpar por muita paixão e disposição, por ser livre de padrões burros e mesquinharias que só te engessam e por se assumir num grande laboratório orgânico e vivo, disposto a colocar a sua cara a tapa, a prova, para o seu próprio aprendizado e o do outro num constante exercício interpessoal de trocas, desapegos, doação, generosidade, controle do ego e etc, criando uma inteligência coletiva. Imagine sistematizar tudo isso considerando as milhares de ações e pessoas de pelo menos 200 coletivos que se conectam permanentemente, além de cada um conectar vários outros parceiros nos seus arranjos locais. Sem contar que cada projeto do fora do eixo hoje, se transforma em novas redes com grupos e pessoas que participam de determinada ação e frente, mas não necessariamente são pontos fora do eixo. É redes em rede, em fluxo, contínuas e só tende a se expandir mais e mais. O fora do eixo é tão transparente que joga na internet centenas de documentos e planilhas em tempo real, construindo-as como um show “ao vivo” pra quem quiser acompanhar. São vários documentos que se tornam fontes pra compilação de informações a medida que surgem as necessidades. E sobre os números tão falados de movimentação da rede, percentual de recurso público e etc, já foram publicados sim. Faz tempo. Os balanços anuais de 2010 e 2011 (dados mais recentes) estão disponíveis há mais de anos no diário oficial fora do eixo e wiki fora do eixo. Se não sabem pesquisar, não acusem a rede de não ser transparente. Além do que, quero ver cada “artista” e/ou cidadão cultural aí abrir sua planilha e seu balanço anual pra que a gente possa conferir tim tim por tim tim como ele está gerindo o recurso público e PRIVADO. Pois além dos coletivos do fora do eixo serem os únicos cobrados de publicar suas prestações de contas públicas (cujo o próprio órgão público já cobra sob pena mínima de não ser mais patrocinado), ele é OBRIGADO a publicizar suas cifras de recursos próprios/privados. Isso porque somos uma rede de pequenos empreendedores culturais tão cidadãos quanto qualquer outro. Mas nos cobram “transparência” como se fôssemos o estado e remunerações como se fôssemos um monopólio do mercado padrão. É mole? Mas pra ter mais transparência, a mais infalível de todas, vá lá, confere, viva, participe, colabore, contribua, se aprofunde. Somos “reféns” da própria abertura de código pra ser modificado e desenvolvido nessa inteligência coletiva. Prova disso é tudo que já andamos e crescemos em tão pouco tempo e com tão pouco recurso financeiro. Nosso maior e mais valoroso ativo mesmo, é os recursos humanos.

Os pequenos coletivos do fora do eixo, depois de tantos anos no rala e se mantendo no rala, com toda a autonomia possível, no trabalho “frenético” como alguns gostam de “irradiar”, agora virou a organização mais rica do país, dependente de dinheiro público e dos partidos de esquerda. Isso porque, segundo os dados de 2011, cada coletivo gere a bagatela de 89 mil REAIS (desse total só 34 mil foram provenientes de recurso público), produzem a média de FdE$ 513 mil cards pra dar conta do recado. Quem investe 7% do total de um orçamento não pode apitar muito né? Além do mais existe um erro grande de achar que as empresas que patrocinam via editais a partir de renúncia fiscal e portanto, dinheiro público, podem interferir na autonomia de um projeto. Ela só tá transferindo o dinheiro do imposto que iria pro estado, pra um projeto cultural que ela viu e gostou. O máximo que ela pode exigir com isso é a prestação de contas. Os coletivos realizaram ao todo 2 mil ações no ano, com 85% de recurso via CARD, 8% via REAL próprio e 5% via REAL do poder público, foram pra cima da ana de holanda (ex ministra da cultura, do PT), entre várias outras iniciativas cujo o fora do eixo não concordava, seja de partido X, Y ou Z e recentemente impulsionaram a mídia ninja que foi a única a trazer realidades da PM (governo) imprescindíveis pra virar o jogo (que tava quase ganho) entre estado X sociedade no brasil, tornando notória toda a sua autonomia, independência e cidadania, favorecendo o lado mais fraco, o lado injustiçado, o lado fora do eixo. Se isso é ser dependente, ser desonesto, ser corrupto, ser submisso, ou ser qualquer lado “mal da força” nessa visão maniqueísta, moralista, preconceituosa, reducionista, falsa e hipócrita que tem de tudo, menos “espírito” humano, continuo seguindo sendo ainda mais feliz de ser um “espírito” fora do eixo.

https://www.facebook.com/lenissalenza/posts/571088132952117

 

*Lenissa é citada nominalmente no texto de Laís: https://www.facebook.com/lcbellini/posts/702021409824865